Livro de Partida: Fabiana Carneiro da Silva, “Casa Cheia”

A experimentação poética me possibilita morada e esquiva. No moldar da palavra me desbatizo e arrisco sonhar

por Fabiana Carneiro da Silva

Capa de “Casa Cheia”, de Fabiana Carneiro

“Fique em casa e dê a ver ao mundo as palavras belas que você produz”. Foi a mensagem que Ifá me entregou naquelas primeiras semanas do puerpério de minha segunda filha, Yeté.  A angústia e a preocupação que o desafio de uma segunda maternidade produziam em mim e que me levaram à consulta aos búzios cederam lugar a um projeto que, até então, permanecia latente, mas guardado, quiçá esperando essa interpelação da vida maior: o meu primeiro livro de poemas. Encorajada pelo chamado ancestral, passei a me dedicar à revisão dos poemas que foram escritos sob o pulsar de uma trajetória de deslocamentos geográficos e subjetivos. Casa Cheia é, como tenho dito em algumas das dedicatórias que assino, um exercício de autocriação e sonho.

A investigação de minha genealogia é uma das tônicas do livro. Ao me tornar mãe senti vibrar em mim a espiral que me conecta intrinsecamente com as mulheres que me antecederam em minha linhagem. Nessa direção, conforme transcrio no poema “Umbigo”, é como se as minhas filhas fossem portadoras de uma nova linguagem que, por sua vez, possui a capacidade de fazer legível o que até então estava cifrado para mim, em mim. Um gesto inventivo e tradutório (sublinhando a contiguidade entre os termos) capaz de, pelo toque sensível de pequeninas mãos, dar a ver imagens de minhas bisavós afro-indígenas que até então permaneciam rasuradas. No conjunto dos textos, também eu pretendo me fazer imagem para essas filhas e para – caso surjam – as filhas das filhas de minhas filhas, minhas bisnetas.

Pisa forte na batida o Tempo. Tento me movimentar pelas frestas numa escrita que se perfaz em silêncio. A cena da escrita é o subterrâneo do dia, as madrugadas de vigília em que pude confrontar o silêncio e de inimigo tê-lo como parceiro. A poética é, contudo, a da Casa Cheia com suas muitas vozes. Das casas tantas que puderam abrigar minha família nordestina em São Paulo, casas que testemunharam corpos de um povo em migração forçada, casas que cantam, casas que dançam, casas como úteros de saudades e assentamentos de fé. Os poemas são narrativos e mais que flertam com a prosa, fluem na medida em que é possível fluir quando se habita entre-fronteiras de pertencimento. A Casa Cheia que erigi me revela e me esconde. Ela está para além de mim, diz sobre uma comunidade e sobre uma experiência comunitária de solidariedade, sobre a produção de tecnologias de existir no embate com a violência.

A experimentação poética me possibilita uma morada em que me esquivo das constrições objetificantes e retificadoras que caracterizam o espaço institucional do trabalho (mesmo que também nesse espaço eu busque me mover de forma contra-hegemônica, não há outra opção, aliás). No moldar da palavra me desbatizo (tal qual propôs Glicéria Tupinambá) e arrisco sonhar. O risco é alto, mas a certeza de que meu olhos alcançarão o tempo vindouro pelos olhos de minhas filhas, é encorajadora o suficiente para tal empreendimento e, sim, repito, arrisco sonhar. Sonho chegar em minha aldeia, lavar os nossos segredos doloridos e ter um sono sem os sobressaltos que a proximidade de um novo dia produz.

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