Em Merleau-Ponty, o poema, o romance – a arte em geral – como indivíduos

Escrever é fazer uma pessoa? Com sua personalidade, suas idiossincracias, o seu jeito? Podemos pensar isso a partir de duas passagens da Fenomenologia da Percepção, do filósofo Maurice Merleau-Ponty. Consideremos a primeira:

Sabe-se que um poema, se comporta uma primeira significação, traduzível em prosa, leva no espírito do leitor uma segunda experiência que o define enquanto poema. Assim como a fala significa não apenas pelas palavras, mas ainda pelo sotaque, pelo tom, pelos gestos e pela fisionomia, e assim como esse suplemento de sentido revela não mais os pensamentos daquele que fala, mas a fonte de seus pensamentos e sua maneira de ser fundamental, da mesma maneira a poesia, se por acidente é narrativa e significante, essencialmente é uma modulação da existência. (p. 208-209)

Poema e fala possuem, aí, características em comum: têm um suplemento de sentido, algo para além das palavras e frases, algo que não se reduz ao pensamento expresso. A fala implica uma maneira de ser, com sua história e sua situação; o poema, de forma análoga, é uma modulação da existência – uma calibragem, uma configuração, um modo de existir. O poema existe, como nenhum outro existe.

“Árvores e casas perto do Jas de Bouffan”, de Paul Cézanne. Sobre o pintor, Merleau-Ponty diz: “A análise da obra de Cézanne, se não vi seus quadros, deixa-me a escolha entre vários Cézannes possíveis, e é a percepção dos quadros que me dá o único Cézanne existente, é nela que as análises adquirem seu sentido pleno” (p. 208)

Essas ideias são reforçadas quando Merleau-Ponty trata, logo depois, do romance, gênero o qual,

se bem que ele se deixe resumir, se bem que o “pensamento” do romancista se deixe formular abstratamente, essa significação nocional é retirada de uma significação mais ampla, como a descrição de uma pessoa é retirada do aspecto concreto de sua fisionomia. O papel do romancista não é expor ideias ou mesmo analisar caracteres, mas apresentar um acontecimento inter-humano, fazê-lo amadurecer e eclodir sem comentário ideológico, a tal ponto que qualquer mudança na ordem da narrativa ou na escolha das perspectivas modificaria o sentido romanesco do acontecimento. (p. 209)

O conteúdo do romance – que para o autor não é exatamente um conjunto de noções nem de perspectivas sobre o mundo – se assemelha à descrição de um pessoa, que não se constitui de uma soma de órgãos abstratos, mas se baseia na fisionomia particular de cada um, animada por como esses aspectos corporais são vividos. Merleau-Ponty está enfatizando todos, integridades que se efetivam. Assim:

Um romance, um poema, um quadro, uma peça musical são indivíduos, quer dizer, seres em que não se pode distinguir a expressão do expresso, cujo sentido só é acessível por um contato direto, e que irradiam sua significação sem abandonar seu lugar temporal e espacial. (p. 209-210)

Pelo mesmo motivo que pensamento aparecia no trecho anterior entre aspas – pois o filósofo se afasta do que possa ser só transmissão de ideias, afirmação de tese, comunicação de informações –, aqui se ressalta que, na arte, são indiscerníveis expressão e expresso, forma de dizer e coisa que se diz. Esse complexo tem seu lugar e hora, é preciso estar lá e então para acessá-lo. Exige de nós um modo de presença. Como diante de alguém.

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