Livro de Partida | Gabriel Carneiro, “Olhando para as estrelas só vejo o passado”

por Gabriel Carneiro

Capa do livro “Olhando para as estrelas só vejo o passado”

Me parece um tanto curioso e louco escrever sobre o processo do meu primeiro livro de literatura – esse guarda-chuva ao mesmo tempo tão largo e tão restrito. Do tanto de coisas que faço e fiz nesses anos todos, a literatura em seu fazer sempre me pareceu muito distante. Sou um leitor, sim, mas escritor? Escrevo há anos, como jornalista, pesquisador, roteirista, mas dificilmente alguém me cunharia escritor por essas práticas, porque geralmente a profissão – é profissão se alguém mal ganha algo? – ou a função é destinada aos ‘literatos’, poetas e prosadores, e, salvas exceções, aos não-ficcionistas prolíficos. Não era meu caso. Semântica à parte, não almejei escrever prosa ficcional propriamente, nunca pensei seriamente em escrever romances ou contos. Meu interesse artístico, desde a adolescência, e meu percurso profissional estiveram voltados para o cinema: em pensar o cinema e em criar cinema – seja como repórter e crítico, como pesquisador, como professor e também como diretor, roteirista, montador e técnico, em filmes autorais, mas também em produções institucionais.

E como cheguei na literatura, então?

Olhando para as estrelas só vejo o passado nasceu em 2014, primeiro como roteiro de quatro páginas para um curta-metragem que deveria ser feito de maneira muito barata, com poucas pessoas, sem som direto, só um ator etc. Fazer cinema é algo bastante complexo porque envolve muita gente, equipamentos, orçamento relativamente alto mesmo que muito baixo. Na época, queria fazer uma ficção científica (FC), meu gênero narrativo preferido. Tinha vindo de um filme bem barato de zumbi, Morte e morte de Johnny Zombie (2011), de um drama premiado em edital, Batchan (2013), e já havia escrito Aquela rua tão Triumpho – que pouco depois ganhou verba para produção e lancei em 2016. Sabia que as chances de conseguir dinheiro para uma FC eram quase nulas, por isso tentar deixá-la o mais exequível possível por mim e por alguns amigos. A premissa inicial vem daí – um alienígena chega à Terra e não encontra ninguém.

Escrever um roteiro é muito diferente de escrever prosa, assim como é diferente escrever uma reportagem, uma crítica, um ensaio, uma tese etc. Alguns desses gêneros se conversam mais, evidente, mas todos para mim são muito diferentes da prosa ficcional. Em reportagens, roteiro e afins, também podemos contar histórias, mas há um tanto de formas formulaicas que regem a escrita, pois respondem ao mercado – seja pela veracidade jornalística, o que é ou não aceito nessa prática, seja pela finalidade na cadeia audiovisual, por exemplo. O roteiro de Olhando para as estrelas só vejo o passado é bem curto, mas foi pensado para um filme de uns 10 minutos. Se alguém o for ler – quem sabe o romance vira um bestseller e sai uma edição com o roteiro também? – verá que ficou muito diferente, apesar de manter a essência. O roteiro é uma peça visual, são ações em cima de ações, com uma ou outra fala. Já o romance é um diário, escrito em primeira pessoa, que ganha contornos bastante confessionais e reflexivos.

Só imaginei essa história como um romance quando o comecei a escrever no segundo semestre de 2020, em meio à pandemia e ao doutorado em Multimeios – ainda em curso. Esses seis anos que separaram esses dois instintos inventivos talvez digam muito sobre como evoluí criativamente. Para mim, que me considero primeiro um diretor e depois um roteirista, o roteiro é pensado como imagens, em como seria dirigido – se alguém for ver meus filmes possivelmente dirá que nada acontece neles, que não há virada ou conflito suficiente, que a história é medíocre. E a escrita é técnica, assim como é o texto jornalístico e ensaístico. Talvez daí a dificuldade de me imaginar escrevendo “literatura”. Ao longo dos anos, tentei um par de vezes escrever algo e sempre foi rapidamente abandonado, tudo me parecia ruim, mal elaborado, pobremente escrito, cheio de tiques advindos dessas outras práticas da escrita.

Poderia dizer que faltava encontrar uma “voz”? Talvez. Talvez tenha simplesmente precisado de um respiro, de diminuir a produção jornalística, de roteiros, e afins. Ou de ler mais, ter mais referências. Ou da exaustão que é escrever uma tese. Só sei que, quando retomei a história de Olhando para as estrelas só vejo o passado, em 2020, foi como uma forma de exorcismo criativo imposto. Como maneira de desanuviar a mente do que era aquele momento que vivia e me permitir pensar outras coisas, em outras formas, com muito mais liberdade e potência, me permitir imaginar outro mundo, sem qualquer obrigação, sem saber no que ia dar, nem sequer se ia dar em algo. Criei então uma rotina que se mantém e que tento respeitar ao máximo – minhas tardes de sexta-feira são dedicadas à prosa ficcional. Não gosto de interromper fluxos, escrever em partes, pela metade etc. Isso serve para a tese também, por isso deixar a literatura para as sextas, para o pré-final de semana. Um pouco de encontrar o equilíbrio.

Quando comecei a escrever o romance, tinha apenas a essência da história. Sabia qual era a linha fina, o cenário, quais pontos queria abordar e o destino, só. Não sabia quais eventos particulares seriam relatados, para onde o personagem se moveria etc. Olhando para as estrelas só vejo o passado acompanha um pesquisador alienígena que vem à Terra desbravar a cultura do planeta, mas, ao chegar aqui, só encontra ruínas de uma civilização. A vida humana, animal, desapareceu. O que fazer frente a esse cenário? Seu objeto de estudo sumiu inexplicavelmente, sobraram apenas os artefatos da existência. Ficar ou voltar? Que trabalho fazer? Para qual planeta distante retornar? O livro é em formato de diário, escrito pelo nosso viajante interplanetário, em diferentes registros, em geral, decididos no momento da escrita, quando sentava em frente ao computador, com meu café, chá ou alcóolico e um fone de ouvido tocando música instrumental. O processo da primeira versão durou um ano e meio. Mais ao final, especialmente na segunda parte, com esse tempo passado, alguns tópicos já estavam bastante cristalizados.

Transformar o roteiro em romance também me permitiu expandir uma série de reflexões, como costurar em palavras inquietações e questões que atravessam meu trabalho como um todo, especialmente sobre a memória. Quatro dos meus cinco curtas como diretor tangenciam esse mote, quando isso não é explícito – Batchan, Aquela rua tão Triumpho, Esboçando Miziara (2020) e Memória Presença (2021). E creio que foi ficando mais intenso com o tempo. Como pesquisador da história do cinema brasileiro que utiliza muitas fontes primárias, pensar a memória é central, permeia não só meu trabalho, como minha vida, de maneira mais ampla. Escrever, nesse sentido, é também tentar entender o que é memória e sua importância, como o passado é interligado ao presente e ao futuro. Para mim, é um assunto importantíssimo, existencialmente fundamental. Enquanto nos meus filmes a questão da memória é mais localizada – a memória do cinema, da Boca do Lixo, da família etc. –, em face ao ostracismo, no livro é algo quase abstrato e calcado na materialidade da memória: o que os objetos podem nos dizer? Olhando para as estrelas só vejo o passado me deu bastante espaço para perguntar e talvez responder um pouco. Quase num ritual de expurgo. Talvez agora, quem sabe?, consiga deixar isso um pouco de lado nas minhas próximas criações artísticas e literárias. Creio que precisava desse tempo, desse amadurecimento da escrita e da leitura.

Escrever em primeira pessoa me permitiu um exercício de alteridade que está no cerne da história. Eu imagino um extraterrestre que tenta imaginar como é ser humano e como é viver na Terra, e me impeliu a tentar olhar à nossa volta com um olhar alienígena, de fora. A escrita em primeira pessoa também facilitou um estilo de fluxo, mais confessional, que acho bastante interessante. Tento imprimir, no ritmo do livro, uma espécie de torvelinho, ou de um buraco negro, para ficarmos em metáforas astronômicas, como construção desse personagem. Começa lento, um tanto burocrático, descritivo, e, aos poucos, em contato com a Terra desabitada, esses registros vão se transformando, o personagem vai se metamorfoseando, pirando, em altos e baixos, entre euforia, descontento e tédio. Um salto no abismo, vertiginoso. É uma narrativa um tanto melancólica, como meus filmes, como eu.

Meu interesse pela ficção científica casa bem com minhas ambições criativas, para além de ser um gênero que gosto muito – já escrevi muito sobre o cinema de ficção científica, meu TCC de jornalismo foi sobre a produção de 1950 a 1964 e a relação com Guerra Fria, por exemplo. A FC permite pensar o mundo de maneira exacerbada, eloquente, expansiva, permite torcer tudo e criar metáforas profundas sobre o hoje. Não que ache que eu alcance esse patamar, claro, ou mesmo busque isso. É uma pena que ainda hoje seja um gênero tão menosprezado por parte do público e da crítica. A produção é vastíssima e tem obras excepcionais – no Brasil, inclusive. Uma das coisas que me interessava no Olhando para as estrelas só vejo o passado era pegar dois lugares-comuns do gênero – a presença alienígena e o apocalipse – e brincar com eles, pensar em outras possibilidades, mesclando justamente com o assunto que persigo, a memória. A síntese desse par está no próprio título. A astronomia, a filosofia inerente a ela, me fascina bastante. Olhar para as estrelas é literalmente olhar para o passado, é ver a luz que viajou milhares de anos para chegar aos nossos olhos, é vermos as estrelas como eram há milhares, milhões de anos – até do sol vemos uma imagem do passado, um sol de oito minutos antes. Mas tudo que olhamos é o passado, não só porque passa a sê-lo instantaneamente, mas porque tudo carrega uma história. Nossa sociedade contemporânea é bastante imediatista e creio que esses fatos se perdem como banalidades. No romance, há também algo do personagem olhar para as estrelas e ver seu lar, distante, e, portanto, seu passado, sem saber seu futuro.

Creio que entendi que tinha um romance em potencial quando estava na metade do processo. Como venho do cinema e da comunicação, meu conhecimento do mercado editorial era (é) bastante parco. Em 2021, resolvi inscrever vários projetos no ProAC, inclusive de literatura. Aquela coisa, mal não faz. Eles pediam apenas um trecho da obra, não precisava estar finalizada nem nada, e a anuência de uma editora. Mas não sabia nem por onde começar. Procurei minha amiga e escritora talentosa Carol Rodrigues para ver se ela me dava uma luz. Ela me indicou a editora Patuá, cuja reputação precedia, e disse que eles eram bastante abertos a essas iniciativas. O Eduardo Lacerda inclusive dá anualmente um curso para escrita de projetos para o ProAC. Saber que a Patuá é aberta para diferentes propostas foi muito legal, porque desde 2019 ela mantém a excelente Coleção Futuro Infinito, dedicada justamente à ficção científica brasileira contemporânea. Casamento perfeito, sabe? Mas não ganhei o ProAC em 2021. E nem em 2022. No ano passado, o romance já estava escrito, mas não terminado. Já tinha relido e mexido algumas vezes, mas só depois que minha leitora beta, minha parceira de vida, Camila Fink, entrou em ação é que me dei por satisfeito. Em setembro do ano passado, escrevi novamente pro Eduardo da Patuá, com os originais mais atualizados, e falei da Coleção Futuro Infinito. Ele prontamente encaminhou para o Luiz Bras, uma das muitas personas literárias do Nelson de Oliveira, responsável pela coleção. Algumas semanas depois recebi o aceite de ambos, tanto do Eduardo em publicar o livro pela Patuá quanto do Luiz em abrigá-lo na coleção. Não poderia pedir casa melhor. Muitas conversas e trocas depois e algumas mudanças, o romance está aí no mundo. Para o texto das orelhas, tive a honra de contar com a leitura da Bernadette Lyra, veterana escritora capixaba e professora de cinema, que conheço desde os tempos do Cinema de Bordas, e que é de uma generosidade imensa. Nesse processo, aliás, só encontrei gente generosa, que mesmo muito mais experiente estava disposta a partilhar seus conhecimentos. A edição ficou linda e o lançamento, no dia 25 de fevereiro, na Patuscada, a livraria da Patuá, foi muito legal. É muito louco – aí ó, essa jornada toda é louca – ver o livro se materializando, primeiro com a edição e revisão do Eduardo, do Luiz Bras e do Santiago Santos, depois com a diagramação, pelo computador, e por fim ter o objeto livro em mãos, poder folheá-lo e tal. Para onde ele vai, se alguém vai lê-lo, não tenho ideia. Também não sei o que esperar dele ou dessa minha incursão literária, mas já estou pensando em novas histórias, em novas escritas. Acho que é o que importa.

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